quinta-feira, 14 de junho de 2012

EGOÍSMO ALTRUÍSTA


Egoísmo e altruísmo, paradoxos que podem dar as mãos na solução de tornar a solidão um motivo a mais para estar melhor na multidão e torná-la fecunda.

O egoísmo altruísta é aquele que a solidão harmoniza, vitaliza, pois prepara o “eu” para encontrar-se melhor com o “tu”.

Recolher-se no mais profundo do eu, privilegiar o autoconhecimento, lugar onde as máscaras são naturalmente retiradas e a face as vezes cansada é apresentada.

Há alguns que não suportam a si mesmo, não suportam a solidão e o silêncio, têm medo. Preferem a internet até o sono chegar (ou o sono prolongar), a música para distrair e acalmar (ou agitar), preferem o livro e outros afins. E quando o sono chega ou se tenta dormir, a sensação é que o dia está incompleto, faltou algo a fazer, alguém pra falar. Percebe-se então que a alma não consegue o sossego restaurador e o intervalo necessário no seguimento dos dias.

E são poucos os que refletem sobre si. Seja através de uma oração antropocêntrica, que coloca o eu no centro, avaliando-o em relação ao dia e/ou através de uma oração teocêntrica, elevando o eu a Deus, reconhecendo que nEle o eu é santificado.

Quando sou altruísta não sendo, ou seja, utilizando-se da máscara que superficializa o meu verdadeiro eu, posso estar sendo egoísta. Então aquilo que faço e sou, ainda que seja algo solidário, será instrumentalizado para que somente o ego seja satisfeito.

A oração é o momento de organização do EGO, permite que o silêncio seja positivo, bem como a solidão. A solidão que prova e provoca solidez, que amoriza e não entendia a alma.

Momento de orar, de entrar no quarto do próprio coração. Assim, poder rir e chorar de si mesmo sem restrições e medo, refletindo sobre os dons e também sobre os defeitos. Momento de crescimento, de amadurecer, de firmar a identidade, com liberdade, com verdade.

Egoísmo altruísta. Necessidade humana de parar um pouco, disciplinar-se no que se é para melhor ser com o outro.

Nada de altruísmo egocêntrico, este falsifica a caridade. Mas sempre 0 EGO(eu) que caminha ao ALTER(tu-outro) para formar melhor o NÓS.

sábado, 19 de maio de 2012

IMPORTANTE E URGENTE



              Relógio desperta, levanto-me, mas ainda não sei se realmente acordei. O que me vem à mente é a sensação de que já estou atrasado e preciso “correr”. Algo ou alguém me espera, preciso ir sem demora... Documentos, ligações, reunião, trabalho braçal, entregas, visitas, pendências, decisões, obrigações... Eis que me aguardam.

É assim. Cada dia pareço estar imerso num sistema que continuamente exige de mim uma resposta, iniciativa, ação; e que, preferencialmente, ou melhor, exclusivamente, seja feito de forma perfeita.


Azáfama! Azáfama! Azáfama! Eis um grito, numa palavra difícil, para expressar o que vivo.

Mas nem tudo está perdido, posso organizar-me interiormente para poder começar organizar melhor o externo.

Sei que tudo o que me rodeia é importante. Todas as esferas de minha vida merecem atenção. No entanto, meus braços não são elásticos, não consigo abraçar o mundo!

Preciso então discernir e eleger nas coisas importantes aquilo que tem caráter de urgência. E assim, priorizando o que é urgente, as coisas vão se “organizando para serem mais bem organizadas”.

Mas deve-se tomar cuidado para não fazer com que as coisas importantes se tornem urgente. Eis um abismo que pode nos levar novamente a azáfama.

O que é urgente? Aquilo talvez que não é tão fixo, mas tem caráter imediato na sua solução. São as coisas inadiáveis, dependentes de uma decisão “hoje e agora”, de uma atitude concreta para seguir em frente. É preciso encarar tais coisas e não deixá-las para depois. Geralmente quando o urgente é engavetado, amanhã ele reaparece em forma de problema.

Por sobrevivência faz-se necessária uma melhor organização administrando as prioridades. Pois querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo é uma forma capciosa de viver. Desgaste grande, o de fazer pouco do que fazemos muito.

Em suma, é preciso saber que nem tudo o que é importante é urgente, e que tudo o que é urgente é importante; cria bases para um agir administrativamente organizado.

Em meio à azáfama??? Priorizar dentre as coisas importantes aquelas que são mais urgentes, talvez seja uma mínima e inicial solução.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

MENSAGEM PARA AS MÃES


Mãe...
Primeiro lugar onde pude habitar,
Sendo gerado por amor para a vida enfrentar,
Sou fruto do seu ventre, qual uma semente.



...Primeiro colo a me segurar e confortar,
No inesquecível momento do meu nascimento.
Onde a dor do parto esqueceu ou escondeu,
Quando seu olhar cruzou o meu e, com carinho me acolheu.




...Quanta segurança estando em seus braços,
Mas um dia tive que os “deixar”
quando os primeiros passos eu aprendi a dar.
Mas seu colo sempre pra mim será, um seguro lugar.


                  

                   ...Primeira Palavra que aprendi a falar,
                    Palavra que resumia o que o coração queria,
                    “Um grito de socorro” pelo medo do novo.
                    Uma referência primeira para apreender a vida.



...Refúgio de minhas dores:
Do joelho esfolado, do dedo no fogo queimado.
Remédio de amor para mim, seu filho malcriado,
Mas que era por você acolhido e amado.



...Quão difícil foi a primeira vez me deixar na escola,
Incentivar-me a ficar e sofrendo ter que ir embora.
Entendeu e com sofrer consentiu que o seu fruto,
Não era só seu, mas para o “mundo”.

...Fonte que restaura a agitada alma, que se perde na busca incansável da calma.
 Colo que envolve e nos devolve nossa real 
  identidade, de ter a filial dignidade.


...Porto seguro das inseguranças do mundo,
Lugar onde o amor permanece, mesmo se às vezes a expressão o esquece.
É uma luz que sempre se mantem acesa.
Uma real certeza de que nem  tudo no mundo é indecisão e tristeza.





..Sua felicidade é a do filho
Esquece-se de si para demonstrar-lhe carinho.
Esconde sua dor para dar ao filho amor.




 ...Forma humana de Deus cuidar de cada filho seu.
Na sua simples e limitada forma de amar humana,
O amor ilimitado Divino emana.


...Seu jeito humilde e silencioso de estar sempre presente,
É algo que toca o coração da gente.
Um espaço grande no coração que nos garante proteção.





....Entende o que se passa, mesmo se não há sequer palavra,
O seu filho percebe quando seu coração adoece.
Incentivo e auxílio quando o filho está caído.


... Jamais cuida do filho para ser aplaudida
Apenas demonstra com sua doação e vida,
Que a medida do amor é não ter medidas.

...Nem mesmo sua ausência, apagará em mim sua presença.
Pois no coração é eterna a união, qual um inseparável cordão.
Não mais o cordão umbilical, mas sim o cordão Cordial,
Esse jamais é cortado, ainda que não esteja mais ao seu lado,
Ele estará sempre nos unindo: Mãe e Filho.


Mãe...
saudade eu sinto, não nego, nem minto,
Do seu olhar e colo que me deram vida.
São boas as lembranças, sei que não há distância...
Que separe você de mim.

Amor de Mãe é assim:
Está dentro de mim e por isso não tem fim...




Música para homenagear as mães
MÃE, SEU NOME É AMAR
                                                                             Hudson Roza

Mãe, palavras não bastam pra expressar tudo o que eu sinto por ti.

Mas mesmo assim quero declarar e cantar quão importante és pra mim.

Primeiro colo a me confortar, primeiro olhar a me admirar.

Primeira palavra que falei, Mãe, seu nome é amar.

MÃE QUERIDA,
NO JARDIM DO MEU CORAÇÃO ÉS A ROSA MAIS LINDA.
MÃE, FORMA HUMANA DE DEUS ME AMAR, TEU CUIDADO E CARINHO SEMPRE VÃO ME ACOMPANHAR.



Solicitar cifra e áudio no email: hudsonroza@hotmail.com





domingo, 29 de abril de 2012

FORMAÇÃO PERMANENTE



A formação é um processo inacabado, exige contínua renovação para que o conhecimento seja sempre mais atualizado diante das inevitáveis mudanças que surgem no mundo complexo e sempre dinâmico.
Óbvio, não somos utópicos em dizer que o conhecimento pode ser adquirido em totalidade por um indivíduo, pois ele é inesgotável. Em outras palavras, nunca ninguém estará totalmente formado. Porém, o conhecimento pode ser sempre mais aprimorado, principalmente no que diz respeito àquilo que é específico e esperado de cada pessoa no seu lugar, na sua ocupação. Sendo assim, até quem é formador precisa também buscar atualizar-se na sua formação.
Prezar a formação permanente é uma sugestão sábia para que o indivíduo - constituído por aquilo que lhe falta - queira atualizar-se na sua formação para que possa fazer com afinco e precisão aquilo (e apenas) que se espera dele.
Os títulos e os diplomas são fundamentais para a formação profissional, isto é, são necessários e na maioria das vezes são condicionantes únicos para poder exercer determinados cargos profissionais. Mas não são exclusivos e não bastam por si mesmos.
O mundo contemporâneo, nas suas mudanças e inovações constantes, provocadas pelo avanço cada vez mais surpreendente da tecnologia globalizada, tem como exigência essa formação permanente.
Nesse processo, parece que parar com o que se tem (e se sabe) é regredir; não crescer e não atualizar-se é diminuir tornando-se marginalizado do mundo cognitivo.
Portanto, a formação não é algo estático e provisório, deve ser encarada como algo permeado de dinâmica e, portanto, permanente.
Mas no afã de uma permanente formação podemos nos enganar em meio a tanta informação. E o engano por vezes é pior do que o erro, pois elege algo como verdadeiro e o dogmatiza. Hoje em dia há muita facilidade de informação, mas nem sempre ela contém qualidade de formação, pois não abrange o conhecimento como um todo.
As informações são necessárias à formação. Hoje em dia, quem detém informação tem certa hegemonia naquilo que faz. Ainda, as informações são tão preciosas que elas são comercializadas em nome do fator competitividade. Contudo, é preciso abandonar o comodismo da informação que superficializa o conhecimento. É preciso ir além das aspas na maneira de interpretar as coisas e buscar sempre mais uma formação sólida.
O conhecimento é adquirido através de uma boa pesquisa. Por sua vez, a pesquisa é responsável por fazer com que os dados e a consequente informação adquirida seja um solo fértil para então atingir o conhecimento. Em outras palavras, saber organizar as informações e torná-las úteis é uma forma de atingir um conhecimento sobre algo.
Mas não é tão somente nos livros, em salas de aula e nas teorias inúmeras que a formação (e também a formação permanente) acontece. Ela também se dá através da leitura da própria vida, nas contingências e necessidades da realidade de cada pessoa.
Em suma, apesar do conhecimento e da formação ser um processo inacabado, a menor intenção de querer atualizar-se na formação já é uma maneira de buscar a formação permanente.


domingo, 8 de abril de 2012

RESSURREIÇÃO


Já não chores Jerusalém, alegria voltou!!!!
Jerusalém que sou eu também, que vibra com a ressurreição do Senhor.
Ele está vivo, é meu amigo, acompanha-me em meu caminho.
Qual o meu caminho? O mesmo de sempre, cheio de supresas, flores e espinhos.
Porém, a maneira de caminhar deve ser sempre renovada.

Saber que tenho Alguém, que quer somente o meu bem, que me ama inesgotavelmente, enche-me de esperança.
Tenho esperança na vida, sei que com Ele sou mais que vencedor, sou capaz de ir além da cruz, além da dor e alcançar a glória, a ressurreição.
Eis que a vida vence a morte, a escuridão cede lugar à luz, as pedras são retiradas do caminho e o túmulo vai ficando vazio.

Novo dia surgiu!!! A páscoa acontece perenemente na vida da gente. Na passagem que propõe recomeço, vida nova, novos planos e sonhos, as vezes, a partir dos próprios erros.
Mas são tantos os sepulcros desse mundo que precisam de ressurreição e que ainda insistem em viver o dia antigo, preferem a escravidão do ontem do que a liberdade do hoje.
São tantos corações que precisam experimentar o toque Divino e retirarem a pedra que obstaculiza a vida nova.

São tantos os que têm a fome de mesa, de comunhão, de celebração e saciam-se daquilo que é insaciável e que provoca talvez mais vazio.
Por isso os que são tocados, os que recebem a graça de "provar" a ressurreição precisam testemunhá-la, precisam anunciar ao mundo que Jesus Cristo está vivo.

Talvez as palavras não são necessárias, basta a vida, pois ela fala e também anuncia!


Alegria minha, alegria nossa, Cristo ressuscitou!! Aleluia!!!!



FELIZ PÁSCOA!!!!



  

quinta-feira, 5 de abril de 2012

PAIXÃO DE CRISTO



O que significa os braços abertos de Cristo na cruz??? Significa o abraço redentor do Pai à humanidade.

Em Jesus, a humanidade foi reconciliada com Deus. A nossa dignidade primordial e existencial de criaturas - feitas à imagem e semelhança de Deus então manchada pela culpa original - agora foi restaurada e "recuperada".

Eis que a entrega total de Jesus, no seu amor essencialmente ÁGAPE, possibilitou-nos a Vida Nova. Sua morte destruiu a própria morte, que já não tem mais poder sobre a vida. Eis que a vida vence a morte.

Contemplar a cruz. Sensibilizar-se diante de tão grande amor, perceber o quanto somos preciosos e importantes aos olhos de Deus. Somos caríssimos, no sentido próprio da palavra, temos o valor do sangue de Jesus.

Mas não deve ser uma contemplação passiva, pelo contrário, a cruz deve tocar e trazer certa motivação à quem a contempla. 

Ela é capaz de nos consolar, suavizando as nossas dores que foram assumidas por Cristo. Unindo nossa dor, solidão e lágrimas as de Jesus, elas perdem sua força imobilizadora.

A cruz também sinaliza um caminho a seguir. O caminho do amor, do perdão, da humildade, da doação. Ter a percepção que ela é vertical e horizontal, o que significa dizer que o amor Divino (vertical) deve ser traduzido no amor humano (horizontal). Jesus deu-nos o exemplo. Exemplo de serviço ao próximo, não só compartilhando o que fazia, mas o que era.

Perceber acima de tudo que há alguém que nos amou por primeiro e que continua nos amando independente do nosso merecimento. Esse amor deveria nos motivar a também a amar. Amar a Deus, os irmãos, a si mesmo.

Um amor sempre atual, na cruz e além da cruz. Um amor que tem o poder de nos ressuscitar à medida em que aderimos de coração a todo esse projeto Divino.

Mas a cruz é para os valentes, para os que amam incondicionalmente e com fidelidade. Toda aquela multidão que seguia Jesus, até mesmo os seus amigos/discípulos, na cruz desapareceram. Permaneceram ali somente João, o discípulo amado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Jesus e nossa. Quem sente-se tocado, amado de verdade não esquece! Por isso é capaz de amar com fidelidade e em todos os momentos.

É preciso seguir e amar a Jesus, e não o milagre ou a cura de Jesus. Talvez esse seja o maior milagre e a maior cura do nosso coração, render-se a um amor inesgotável que tem o poder de nos conceder VIDA. 


A cruz. Prova maior do amor Divino por cada um de nós...
 
 

domingo, 1 de abril de 2012

A ESPERANÇA CHEGANDO...


Eis que é chegada a Semana Santa, momento propício para refletirmos sobre a vida de Jesus, na sua entrega que revela o grande amor de Deus pela humanidade. Mas o seu itinerário é também o nosso, de cruz e de glória, e por isso é também um momento para refletirmos sobre a nossa caminhada e assim nos enriquecermos espiritualmente.
 A entrada de Jesus em Jerusalém é o ponto de partida. A multidão o acolhe com alegria, como quem visualiza de perto a esperança chegar, na salvação prometida pelo profeta: “Eis que teu Rei vem à Ti montado num jumentinho” (cf. Mt 21,5). O Cristo Salvador chegando está e por isso todos o aclamam: “Hosana ao Filho de Davi”.

A carruagem, os privilégios, o exército, a coroa, o brilho do ouro, são dispensados por Jesus. Ele chega num jumentinho com humildade e é assim que ele busca estabelecer o Seu Reino.

 Ele bem sabe que a multidão que o aclama “Bendito” será talvez a mesma a gritar “Crucifica-o”, mas nem por isso deixa de amar, de olhar nos olhos, de abraçar os que o rodeiam e viver com intensidade aquele momento haurindo forças para cumprir até o fim a vontade do Pai.

 Somos também essa multidão, paradoxo de sim e de não presentes no coração. Pensamos estar acolhendo Jesus, mas na verdade é Ele quem nos acolhe em seu coração na sua decisão de assumir para si as nossas dores (cf. Isaías 53). Jesus conhece bem essa multidão, conhece bem o nosso coração, sabe da  vontade de amá-lo com fidelidade, mas também sabe que somos capazes de traí-lo com nossa infidelidade.

De fato, “ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (cf. Fil 2,7-8) para nos salvar e nos libertar.  Grande amor de um Deus que se fez escravo para conceder-nos liberdade, fez-se homem para nos “divinizar” e morreu para nos permitir a vida eterna.

Itinerário da cruz e glória, entre o Domingo de Ramos até o próximo Domingo de Páscoa. Não há glória sem ter cruz, é um caminho necessário e que não permite atalhos.

É preciso acreditar que a dor é passageira e que Deus jamais nos abandona. E Embora às vezes possamos ter certa desconfiança, de forma a dizer como Jesus: “meu Deus porque me abandonastes” (Salmo 21), Ele permanece ao nosso lado, é o nosso “Cireneu” e nos auxilia no caminho de cruz rumo à glória.

 Que possamos vivenciar bem essa Semana Santa. Que possamos acompanhar Jesus participando das celebrações que a Igreja propõe nesses dias e que celebram esse itinerário de Cristo, de cruz e ressurreição e que atualizam a Sua Salvação a cada um de nós.



sábado, 25 de fevereiro de 2012

QUARESMA ...

 

É sabido que a Quaresma, palavra que vem do latim quadragésima, é o período de quarenta dias que antecedem a festa ápice do Cristianismo: a ressurreição de Jesus Cristo, comemorada no Domingo de Páscoa. A quaresma tem seu início na Quarta-Feira de Cinzas e seu término ocorre no sábado anterior ao Domingo de Ramos para o início da Semana Santa. Para algumas pessoas esses quarenta dias representam dias de jejum e oração e, ainda, lembra o periodo de 40 dias que Jesus passou no deserto em oração.
No senso comum, entre os cristãos católicos mais tradicionais, é considerada um tempo de muito sacrifício, renúncias, mortificações, penitências, abstinências, etc. Não se pode contradizer tal realidade, mas o espírito essencial da Quaresma não é bem o sacrifício, mas é a CONVERSÃO, realizada sob o alicerce da MISERICÓRDIA de Deus, que a respeito nos diz: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9,13).
Misericórdia! Uma palavra tão comum, falada por muitos no cotidiano, mas que muitas vezes não é conhecida no seu sentido íntimo. Se “cortarmos” a palavra no meio, na sua etimologia, temos: Miséria+Córdia, ou seja, misérias humanas e Coração Divino.
Misericórdia, a constatação da miséria humana que urge ser acolhida no Coração Divino. Nesse sentido, misericórdia e conversão andam de mãos dadas. A conversão torna-se consequência da prática autêntica da misericórdia.
Sobretudo, a conversão é um processo constante da vida. Ninguém está preparado totalmente. Aliás, ninguém nasce pronto. Somos o oposto de outras coisas que nascem prontas e vão se gastando com o passar do tempo, pois nascemos vazios e na medida em que vivemos vamos crescendo, nos fazendo, nos formando. Isto acontece tanto no sentido daquilo que devemos adquirir quanto também no sentido de retirar os excessos maléficos presentes no nosso ser.
A Quaresma é também um grande itinerário que se pode fazer para dentro do nosso eu. Normalmente encontramos pessoas que têm prazer em viajar, em aventurar-se para um lugar bem distante, muito lindo, repleto de aventuras talvez, longe de tudo e de todos. Pois bem, não sou nenhum agente de viagens, mas dou uma singela dica, nesse tempo Quaresmal, o “nosso eu” é um lugar propício, recomendável e interessante para se poder “viajar”.
Uma viagem em que não necessitamos levar muitas bagagens, porque uma das consequências de tal viagem é justamente diminuir as bagagens que trazemos em excesso e que tem nos cansado no caminhar.
Qual excesso que tenho levado na minha bagagem, naquilo que julgo ser necessário para viver com intensidade a minha vida, a minha busca de fidelidade e então de felicidade? Na Quaresma, o deserto, o silencio, a oração, a autodisciplina são meios para, primeiramente identificar, e depois retirar da mala do coração os excessos.
Não é o chocolate, a coca-cola em si ou quaisquer outras coisas que obstaculizam a leveza do nosso coração, eles são símbolos que condensam a luta espiritual entre a carne e o espírito. Porém, ao fazermos qualquer propósito para vivenciarmos bem esse tempo, ele deve conter a intenção de educar o nosso corpo, os nossos instintos e impulsos através do nosso espírito.
Não significa dizer que não se vai nunca mais comer “chocolote”, mas que a abstinência provisória dele pode proporcionar um crescimento interior, uma maturidade humana e espiritual na capacidade adquirida de se possuir permanentemente. De fato, só quem se possui é capaz de doar-se ao outro, na doação completa que não corre o risco da superficialidade e, ainda, é capaz de ser livre nas decisões.
Digamos que Quaresma é uma grande oportunidade que temos para retornar a nós mesmos, na nossa verdade mais íntima que talvez ainda não conhecemos. Ela tem haver com a dignidade própria de termos sido criados por Deus, salvos por Jesus Cristo e santificados pelo Espírito Santo.
Oportunidade, palavra tão linda, do latim ob portus. É explicada a partir de um vento nomeado pelos romanos marítimos; vento que passava uma vez ao dia e tinha a função de conduzir o barco à vela para o porto, se eles perdessem (por distração) tal vento tinham que esperar até o dia seguinte o próximo vento “ob portus”.
Portanto, não percamos a oportunidade que a Quaresma nos oferece para retornarmos ao Porto Seguro, de onde devemos sempre partir e retornar: Deus.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

MÁSCARAS: traição e atração



         Carnaval, um tempo de máscaras! O que se percebe é o quanto o povo de si se esquece, querendo assumir o que não se é para quem sabe talvez, conquistar o que e quem se quer. 
       A máscara. Sua intenção é despertar atenção e atração, acompanhadas do risco da traição.

Trair é fingir, fingir é fugir de si mesmo, divorciar-se da própria identidade rompendo com a sinceridade pessoal e com a alteridade natural.

Atrair com base na traição não convém, não há um profícuo bem, a atração não existe a não ser por falsificação. Feridas grandes que se criam a partir do verniz que se coloca. O verniz dá brilho e tudo mais, mas muitas vezes é colocado somente para suprir lacunas qualitativas à madeira.

Não é preciso se trair para atrair. A atração verdadeira que não é passageira é aquela que cria raízes no solo da sinceridade do ser. É sendo quem se é, na tranquilidade de deixar-se conhecer sem o medo do desprezo, que se consegue atrair o outro para o nosso centro.

A atração que falo não é a banal, mas a cordial; aquela que seja uma porta de entrada para o outro adentrar em nosso coração e assim tornar-se  participante de nossa vida, fugindo daquilo que tem caráter provisório e que contenha superficialidade.

Sim, a máscara chama atenção, pode atrair a muitos, mas não atrai a todos. Ela é colocada no Carnaval, mas em alguns ela permanece durante anos. E quando o Carnaval passar? Para muitos a quarta feira de cinzas nada significa, não entendem a mensagem de que somos pó e cinzas e às vezes preferem continuar a usar a máscara por mais tempo.

No poema Tabacaria, o poeta português F.Pessoa tão bem expressou ao falar de alguém ou de si mesmo: "Fiz de mim o que não soube e o que soube não o pude fazer (...) quando resolvi tirar a máscara vi que estava envelhecido...”.

A máscara falsifica o nosso perfil, nos envelhece, nos engana, mas muitas vezes isso tudo não se percebe pelo simples motivo da ilusão, onde as emoções provisórias nos traem. A intenção não tem atenção quando a máscara tende a tampar as nossas misérias e ainda dar outra imagem de nós mesmos.

Fingir é fugir da realidade que é chão para alcançarmos os nossos sonhos, os nossos ideais. Não devemos nos contentar com aquilo que somos, é interessante e útil o aprimoramento, a experiência, o esforço, o interesse; enfim, precisamos ser insaciáveis em ter a nossa própria definição. Como dizia Guimarães Rosa: "O animal satisfeito dorme".

Não devemos fugir daquilo que somos, mas também não devemos erguer nosso eu como a um troféu, na satisfação de quem se acha pronto e imutável. Não, nada de "espírito de Gabriela": “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim...” É muito mais louvável a busca e o esforço natural do que o comodismo ocioso em colocar a máscara e resolver tudo como a uma mágica.

         Falo da máscara subjetiva, não da máscara enfeite. Sobretudo porque há uma maneira sadia de usar máscara, participar da festa, viver a cultura, sorrir, dançar e se alegrar no Carnaval. Mas que a máscara circunstancial não seja pretexto para tornar-nos mascarados na identidade pessoal.

        Quiçá as máscaras pudessem ser tiradas ao término do Carnaval e assim, todos pudessem viver sob o regime da sinceridade. Trair e ser infiel é também sinônimo de infelicidade, tenhamos o devido cuidado com o Carnaval temporal e sobretudo com o Carnaval que insiste em querer continuar.




TABACARIA
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó(roupa) que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou SUBLIME.
(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

FORMAÇÃO TÉCNICA E HUMANA



Na cultura do “cada vez mais e melhor”, onde o conhecimento é inesgotável e a todo tempo buscado, as pessoas sentem a necessidade de estarem atualizadas tecnicamente. Mas será que estar atualizado segundo os critérios de uma formação técnica pode garantir a formação da pessoa como um todo?
A técnica é importante. O trabalho, as pessoas, as oportunidades exigem tal formação. Para isso, existem inúmeras possibilidades de se buscá-la e aperfeiçoá-la cada vez mais.
Desde a creche escolar até o doutorado, quantos caminhos, quantos livros, conceitos, lições absorvidas e acrescidas, quantos cadernos escritos, trabalhos, experiências, leituras, enfim, quanta teoria para conquistar concretamente uma formação técnica. Sabendo sempre que a função da teoria é iluminar a prática.
Mas, como motivou-nos a pergunta inicial, os diplomas, títulos, cargos não determinam uma boa formação humana. Óbvio que todos esperam humanidade de quem é aparentemente superior aos outros, seja pelos títulos ou por cargos que definem uma boa formação técnica. Mas nem sempre é assim, todos nós, em proporções diferentes, temos lacunas no que se refere à formação humana.
Ela também é exigida, ainda que seja de maneira indireta. Porém, não temos “lugares” propriamente ditos para garantir uma formação humana. É bem verdade que muitas bases são adquiridas na família. Na faculdade também temos algumas disciplinas que favorecem o seu alcance como a ética, psicologia, sociologia, antropologia; Na própria religião podemos também haurir algo sólido em formação humana. Mas todas tentativas são como que fragmentos, não abrangem o todo da formação humana na atenção que merece.
Quantos maus exemplos se têm de pessoas com cargo superior a outras, possuem diplomas e se esmeram em serem “maiores e melhores”, mas não são capazes de dar um ‘bom dia’ aos seus colaboradores. O contrário também pode ser verdade, colaboradores que veem na figura do superior um inimigo, às vezes sem ter um grande motivo. O que é isso? Será apenas uma formalidade exacerbada ou realmente é falta de formação humana?
Mas não basta constatar essa deficiência em nossa formação, é preciso buscar melhorar o nosso fragmentado eu. Na verdade o que nos falta é um pouco de reflexão sobre nós mesmos.
O autoconhecimento fundamenta a formação humana. À medida que vamos nos conhecendo, vamos aprendendo a acolher o nosso lado sombrio e assim, vamos nos humanizando mais. Vamos tirando aquele peso de que somos e devemos ser a todo tempo perfeitos.
De fato, quem se conhece ou busca um autoconhecimento, não foge de si mesmo e nem se frustra com as suas misérias. Isso pressupõe também um acolhimento melhor do outro.
Eis a formação humana, aquela que passa pelo critério benévolo do autoconhecimento. É o processo de percorrer as moradas do nosso castelo Interior, como diz Teresa de Jesus, ou adentrar e conhecer o “edifício do eu”, como reza Augusto Cury. E aí percorrer todos os espaços e não se contentar só com a sala da recepção, mas ir além, sabendo descer no subsolo das misérias e erros, bem como subir nos mais altos andares das virtudes e dons.
Em suma, a formação técnica é fundamental para fazer, mas a formação humana é essencial para ser, e ambas se complementam no que diz respeito à característica de um bom profissional.
Levando em consideração que nunca ninguém estará 100% formado, seja técnica ou humanamente, pois a formação é um processo inacado e que exige uma formação permanente. (tema da próxima postagem).

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

No fundo do mar...

No fundo do mar um mundo novo posso olhar e, sobretudo, enxergar.
Em cada mergulho limitado pela respiração contemplo a beleza do que é natural e tem aspecto sobrenatural.
Os peixes são os enfeites desse cenário real que tenho a oportunidade de conhecer. Eles estão vivendo o ordinário de suas vidas, sendo o que são na normalidade; talvez espantados com alguns homens que a área deles invade. E assim, permitem o extraordinário ao serem contemplados por eles.
Percebo nesse mundo o silêncio, mas nem por isso deixo de ouvir uma bela canção. Canção harmônica que em minha alma ressoa, acalma e encanta; Canção que me prepara tal e qual o intervalo de um acorde para voltar lá em cima e renovar a melodia, na respiração que me inspira a retornar.
Na solidão desse momento sinto-me renovado por dentro; 
Piscina que fascina quem ali chega, mergulha e deseja conhecer esse novo mundo.
             Mas não tem jeito, a alma inquieta, sempre com pressa, parece não conseguir viver com totalidade esse sublime momento; Assim sendo, quer registrar de alguma forma no interior aquilo que contempla no exterior no afã de não perder o que ganhou.


O que se registra é uma consequência e uma demonstração mínima do que a alma experiência, isto porque as palavras não conseguem traduzir com precisão o que toca profundamente o coração.
Contudo, as palavras são necessárias, não são secundárias, a boca não fala daquilo que está cheio o coração? 

"A beleza salvará o mundo", dizia o pensador Dostoiévski; Isso pode ser verídico na medida em que o exterior provoque mudanças no interior;