quinta-feira, 21 de abril de 2011

PAIXÃO DE CRISTO. Os personagens na minha identidade.

Com qual personagem você se identifica na real e perene cena da Semana Santa?
            No itinerário de dor e de amor de Jesus, na memória que tem o dom de atualizar essa bela história dentro de cada um de nós, há muitas possibilidades para formarmos um conceito e definir esse evento salvífico.
Porém, quem define pode limitar o que quer refletir. Sobretudo, trata-se de um mistério, o mistério Pascal, que não tem muita explicação na razão, deve-se aceita-lo pela fé e permitir ser tocado no coração por esse mistério que manifesta o grande amor Divino pela humanidade.
Os personagens? São os mesmos. Os de ontem são também os de hoje. Por vezes encontram-se simultâneos em uma pessoa só, em nós mesmos. Mas cada um tem algo a nos ensinar, em forma de lição para não repetirmos o erro ou em forma de exemplo para podermos imitá-los. Tantos são os personagens, tantas são as possibilidades que temos para vivermos com coerência o que o Mestre Jesus nos ensinou. Ei-los:

Jesus: O personagem principal que por sua humildade e sofrimento refletidos na cruz conquistou a alegria da salvação à humanidade;
Maria: Sofrer em silêncio, amar e esperar a vontade do Pai para a vida do seu filho. Psicologicamente é a maior dor humana, a mãe perder um filho. Dor superada pelo  amor e esperança;
Judas: Traiu Jesus, um erro comparável a negar Jesus (Pedro). Porém, Judas não se arrependeu do erro, não aceitou a misericórdia Divina como Pedro. E, assim, com um nó na garganta que prendia as lágrimas e o peso da culpa, mergulhado no remorso e amargura se enforcou;
João: O mais jovem dos discípulos. Perseverou no amor. Foi fiel até a cruz, ao lado de Maria (Nossa Senhora) seguindo o conselho do Mestre. Dizem que era o discípulo que Jesus mais amava, mas talvez fosse o discípulo que mais permitiu ser amado por Jesus. Quem se sente amado consequentemente deseja amar. Assim foi João, o discípulo do amor;
Pedro: Não soube vigiar, jurou valentia e fidelidade no seguimento, mas negou por três vezes Jesus. Mas através das lágrimas, soube se arrepender e aceitar a misericórdia Divina para recomeçar.
Judas: Semelhante à Pedro no erro, mas diferente na sua maneira de lidar com ele. Não confiou no perdão Divino e, julgando a si mesmo, se condenou e decretou sua própria morte interior e depois concreta, se matou.
Multidão: Que soube com entusiasmo aclamar a entrada de Jesus, do Messias, do Salvador em Jerusalém com brados de “Hosana, Bendito”; mas que também com crueldade gritou: “Crucifica-o”, influenciando a decisão de Pilatos;
Cireneu: Soube ser amigo, mesmo não conhecendo bem Jesus, prestou-lhe um auxílio carregando com Ele a pesada cruz;
Verônica: Enxuga o sangue, o suor, as lágrimas de dor no rosto de Jesus. Um alívio provisório na subida do Calvário.
Herodes, Pilatos, Sacerdotes: Seguir com exatidão à lei, num “amor” paradigmático e tradicional que dispensa a novidade e o que prevalece sobre a lei. Eles se pautam no amor à lei quando a proposta de Jesus é a lei do amor;
Soldados romanos e judeus: São obrigados a obedecer às ordens, açoitam e crucificam Jesus cruelmente. São levados pelo sistema e não podem contrariá-lo.
O bom ladrão: Talvez o primeiro a entrar no paraíso, conforme a promessa de Jesus: “ Ainda hoje estarás no Paraíso”. Soube reconhecer a própria culpa e a inocência de Jesus, diferentemente do outro crucificado, que exigiu ironicamente a salvação;
 
Madalena: De pecadora à adoradora. Deixou-se olhar e enxergar por Jesus. Recebeu dele um amor inesquecível e transformador. Contemplou por primeiro a ressurreição e foi transmití-la. Jesus não escolhe os melhores e prontos, mas tem paciência em melhorar os que escolhe;
Tomé: Não acreditou na ressurreição, precisa de algo concreto para provar que Jesus está vivo. É sincero na sua forma de acreditar, e por isso, na docilidade do que pediu soube exclamar e professar ao tocar nas chagas de Jesus: Meu Senhor e meu Deus!
       Com certeza que nos identificamos com um ou mais personagens dessa história. Mas gostaria de destacar um personagem que talvez não é muito valorizado e refletido nessa história: Barrabás.
Imagine alguém condenado à morte através dos anos de prisão por uma justa causa. A pessoa já não tem mais expectativa de vida, a morte já foi decretada e o que resta é só sofrimento. De repente chega alguém na prisão e diz: “Barrabás, vem para fora! Você está livre! Um tal de Jesus vai morrer no seu lugar!”
     Óbvio que tenho conhecimento da injustiça feita para com Jesus. Ele não merecia a condenação feita por “troca” com um malfeitor como Barrabás. Porém, a história foi essa, e ela deve ser nossa escola, nosso terreno para meditar e interiorizar a Paixão de Cristo por cada um de nós.
     Meditemos sobre a alegria de Barrabás. Uma luz surge na sua vida, ele pode voltar a viver, voltar a sonhar, a planejar, de agora em diante está livre. Há gratidão no seu coração por Jesus, que assumiu o seu lugar, o seu erro, a sua culpa.
      Alegria de Barrabás. Alegria de quem alcançou uma Salvação mesmo não merecendo. Alegria que nasce da surpresa e da gratidão que também deve estar presente no nosso coração, somado ao desejo de retribuir a Jesus com uma vida condizente ao que Ele nos ensinou.
      Alegria de Barrabás, uma alegria Pascal. Alegria fundamentada na pessoa de Jesus que, com sua vida, morte e ressurreição, garante àqueles que O aderem, a Salvação.
  
Lembremo-nos sempre: Não há glória sem ter cruz!


A todos os leitores desejo FELIZ PÁSCOA!!!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pedro e Judas, negar e trair...

    
     Qual é a pior ação: negar ou trair? Pedro na negação e Judas na traição à Jesus nos auxiliam nessa reflexão.
     Pedro, após ser reconhecido como um dos seguidores de Cristo dentre tantas pessoas, o que seria talvez motivo de orgulho por trazer no semblante as "pegadas" do Mestre, negou para aquelas pessoas que conhecia Jesus. Jesus sabia da fraqueza de Pedro, por isso tinha falado antes que ele iria negá-lo três vezes antes do galo cantar, o que para Pedro foi um absurdo.
     Judas, por sua vez, traiu Jesus. Jesus conhecia certamente o coração de Judas, sabia de toda inclinação para o mal, do roubo. Mesmo sabendo dessa inclinação, Jesus ao dar a Judas o cargo de ecônomo dos discípulos, deu-lhe  também uma oportunidade de ser melhor. Ele não aproveitou e traiu Jesus por insignificantes moedas.
     Não sei dizer qual das duas atitudes é a pior. Mas quando somos traídos, por mais duro que seja, há certa possibilidade de reconciliação com quem nos traiu, por mais dura que seja a dor de ser traído, de ser trocado por moedas (no caso de Jesus). Agora quando somos negados, quando alguém nega nos conhecer, a sensação é que a pessoa não nos considera, e decreta indiretamente nossa morte.
     Não obstante ao grau do erro, ambas atitudes, traição e negação feriram e continuam ferir grandemente o coração de Jesus. Contudo, "um erro na vida não pode ser uma vida de erros"(Pe. Zezinho). As pessoas santas não são aquelas que nunca caem, mas são aquelas que sabem levantar de suas quedas, confiando na misericórdia de Deus.
     Pedro, ao negar por três vezes Jesus, e depois ouvir o galo cantar, chorou amargamente a sua culpa. As lágrimas foram palavras que seu coração soube falar em forma de arrependimento e confissão. Pedro, aceitou a misericórdia de Deus.
     Judas, também reconheceu sua culpa, chegando a deitar fora as moedas com as quais ele "vendeu" a traição. Porém, ele achou que era indigno do perdão de Deus, não se perdoou, não aceitou a misericórdia Divina e se matou.
    Diante dos nossos erros, seja traição ou negação, temos que ter a atitude de Pedro. Reconhecer os nossos erros e chorá-los amargamente. Atingindo aí a contrição verdadeira e o auto-perdão para aceitar e receber o perdão de Deus.
     O nosso orgulho muitas vezes impede-nos de receber o perdão de Deus. Quando não nos perdoamos, projetamos no outro e em Deus essa mesma atitude como consequência. Ficamos num ignorante achismo de sentirmo-nos indignos do perdão. Essa é atitude de Judas. Atitude de quem não confia no perdão, e assimd ecreta sua própria morte interior. Geralmente tais pessoas têm também dificuldade de perdoar as pessoas. Ou seja, não se perdoa e o resto torna-se projeção; seja receber ou ofertar um perdão.
     Portanto, que saibamos ter a humildade em assumir os nossos erros, arrepender-se deles aceitando o perdão Divino. Deus não é um Deus bravo, que está sempre pronto a nos castigar. Não devemos temer Seu amor, Sua misericórdia.
      Pedro foi humilde, deixou que Deus fizesse um julgamento de si. Por isso provou Sua misericórdia. Judas foi orgulhoso, ele fez um julgamento de si mesmo. Em outras palavras, Judas abriu um guarda-chuva que impediu o grande amor de Deus(comparado ao sol) atingir sua vida.
     Diante dos seus erros, saiba que Deus está sempre pronto a lhe perdoar. Não importa o tamanho do pecado, importa sua contrição, seu arrependimento e confiança na misericórdia Divina.
           Coragem! Deus não lhe condena porque Ele lhe ama.


      Saiba, que todo teu pecado, em toda tua vida é apenas uma gota diante do Oceano da misericórdia Divina(Sta.Faustina).

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Hosana ou Crucifica-o?! Aclamá-lo ou crucificá-lo?


Hosana ao Filho de Davi! Que vem para salvar o mundo, e também o mundo que sou eu.
Um Deus perfeito e glorioso que revela na simplicidade seu amor grandioso pela humanidade.

Vem Senhor! Adentra em Jerusalém, traz a alegria e a salvação necessária para esse povo e lugar.
Jerusalém que sou eu também, que o Senhor insiste em bater às portas para entrar e aí seu plano de amor e Seu Reino de paz implantar.

Sei que a multidão que agora lhe aclama como “Bendito”, é a mesma que gritará “Crucifica-o”. Entendo essa multidão porque conheço meu coração.
Sei que nele há um grande desejo de ser fiel, de amar e de lhe aclamar com “Hosana”. Mas não vou negar que em mim também há o desejo de lhe trair e de lhe crucificar.

Assim sou eu, paradoxo de sim e não, na doença que clama o remédio e o médico para encontrar solução, misericórdia e salvação.

Tamanha minha alegria em lhe receber. Seu jeito simples quebra os paradigmas e perfil do Messias esperado, no protótipo de alguém poderoso, autoritário, com uma valentia glamorosa; Eis que vem em cima de um jumentinho...
Essa sua maneira de ser, nos gestos afetivos e efetivos, sandália aos pés e sem nenhum exército ao seu lado, refletem humildade.

Eis que meu coração se sensibiliza com a sua decisão, com a sua descida ao meu lado na capacidade de amar até o limite, qual limite? Não ter limites, já que “a medida do amor é não ter medidas”(Bernardo de Claraval).
Eis a kenosis primeira que revela Seu amor à humanidade inteira. Decisão de abaixar-se, de humanizar-se para divinizar-nos, de tornar-nos melhores. Sou profundamente tocado por sentir-se concretamente amado.
Tem em si a essência de quem ama: ir ao encontro do amado. Não se pauta pelo critério do mérito, da troca, da cobrança, mas simplesmente pelo verbo que acompanha sua definição: Amar.

Bendito é, ó Filho de Davi! Que adentra no meu coração e aí quer continuamente atualizar sua Salvação. Acolho sua vida, na decisão e consequência de ser cristão. Estou ciente da perenidade da luta à quem vive a sua vida.

Sobretudo, estou ciente de que no itinerário da vida, terei muitas cruzes para carregar antes da glória contemplar.


terça-feira, 12 de abril de 2011

Misericórdia Divina e miséria humana




                 O cenário está todo preparado: os fariseus, a mulher pecadora e Jesus.

             Os fariseus, homens que trazem pedras na mão, mas, sobretudo, trazem pedra no coração.   Julgam e condenam o pecado da mulher, mas talvez eles mesmos fizeram-na pecar. Não percebem que o erro muda de lado quando o identificamos mas não buscamos solucioná-lo. Não, a solução não é condenar, apedrejar, difamar, humilhar o outro através do seu erro. Ó fariseu, que também habita no meu eu! Quando me esqueço do meu próprio erro, quando não sou capaz de acolher o outro sendo-lhe um apoio, levantando-o da queda e motivando-o ao recomeço.
A mulher, todos a condenam, mas a pior condenação é a que ela faz de si mesma. Já não tem expectativa, sonhos ou planos que sejam; para ela, a morte já é certa. As pedras já foram atiradas no seu interior, o rosto está desfigurado, retrata o cansaço da vida ingrata, de ser apedrejada com o olhar malicioso do outro, de sentir-se roubada e usada na sua pernonalidade. Está ali, ajoelhada, ferida e humilhada na sua dignidade mais íntima de pessoa. Tantas são as palavras de maldição na expecativa dessa condenação. Palavras que ferem, que julgam, que condenam, que humilham. Na verdade, tais palavras são piores que as próprias pedras. Na sua vida, foi difícil escutar uma palavra que a pudesse perdoar, acolher, corrigir, educar. Mas eis que agora está ali. Sua defesa é a sinceridade, sua própria confissão. Mas em Deus, o réu confesso tem a garantia do perdão e da liberdade.

           Jesus, Veio ao mundo para resgatar no homem a sua dignidade perdida de ser Imagem e Semelhança de Deus. De suas palavras, seus gestos, do seu olhar exalam amor. É feliz quem se encontra com esse amor Divino, capaz de humanizar-nos na totalidade do nosso ser.
           Jesus, os fariseus e a mulher, confronto entre a lei e o amor.  O encontro com a mulher quer ser também um encontro indireto com os fariseus, naquilo que Ele faz e é. “Quem não tem pecado que atire a primeira pedra!” Ninguém ousou atirar a pedra, foram saindo de mansinho como quem sente o peso na consciência. Não é o amor à lei que salva o homem e o torna santo, mas sim, a lei do amor. Os fariseus foram embora e Jesus fica a sós com a mulher.
              A misericórdia e a miséria (Sto. Agostinho). Ela recebe dele um olhar e um jeito único de ser acolhida. Um olhar profundo, cheio de misericórdia, que tinha a intenção de resgatar a dignidade perdida pelo pecado e pelos invasores de sua alma. No olhar de Jesus não há malícia, não há condenação, há acolhida, há compaixão.  Porém, há um pedido: “Vai e não tornes a pecar!” O gesto de quem ama se desdobra não só em  acolhimento, mas também no aconselhamento. Não se sabe bem ao certo a resposta vital da mulher ao sair daquele encontro, o Evangelho não relata.
              Mas quando o Evangelho não termina com precisão (na maioria das vezes), significa que o término dele torna-se opção de quem o lê e busca atualizá-lo na vida. Nesse Evangelho, de modo particular, devemos sentir esse carinho acolhedor de Deus por nós, mas também devemos nos decidir em relação ao que Ele nos pede. Assim, as pedras que trazemos na mão que ora ou outra utilizamos para jogar nos outros ou em nós mesmos, não mais existirão. Elas darão lugar ao solo fértil do coração que aprende a cada dia que “um erro na vida não significa uma vida de erros”(PE.Zezinho). 
              E as pedras que os outros querem nos jogar? Não se pode evitar o julgamento do outro, existindo ou não o erro. O que pode ser feito é deixar-se olhar pelo olhar que redime, que salva, que anima, que convence, que ama.
              Eis o olhar de Jesus: olhar de quem AMA , acolhe, perdoa e levanta a pessoa para que ela possa recomeçar..   

segunda-feira, 21 de março de 2011

QUARESMA ...

É sabido que a Quaresma, palavra que vem do latim quadragésima, é o período de quarenta dias que antecedem a festa ápice do Cristianismo: a ressurreição de Jesus Cristo, comemorada no Domingo de Páscoa. A quaresma tem seu início na Quarta-Feira de Cinzas e seu término ocorre no sábado anterior ao Domingo de Ramos para o início da Semana Santa. Para algumas pessoas esses quarenta dias representam dias de jejum e oração e, ainda, lembra o periodo de 40 dias que Jesus passou no deserto em oração.
No senso comum, entre os cristãos católicos mais tradicionais, é considerada um tempo de muito sacrifício, renúncias, mortificações, penitências, abstinências, etc. Não se pode contradizer tal realidade, mas o espírito essencial da Quaresma não é bem o sacrifício, mas é a CONVERSÃO, realizada sob o alicerce da MISERICÓRDIA de Deus, que a respeito nos diz: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9,13).
Misericórdia! Uma palavra tão comum, falada por muitos no cotidiano, mas que muitas vezes não é conhecida no seu sentido íntimo. Se “cortarmos” a palavra no meio, na sua etimologia, temos: Miséria+Córdia, ou seja, misérias humanas e Coração Divino.
Misericórdia, a constatação da miséria humana que urge ser acolhida no Coração Divino. Nesse sentido, misericórdia e conversão andam de mãos dadas. A conversão torna-se consequência da prática autêntica da misericórdia.
Sobretudo, a conversão é um processo constante da vida. Ninguém está preparado totalmente. Aliás, ninguém nasce pronto. Somos o oposto de outras coisas que nascem prontas e vão se gastando com o passar do tempo, pois nascemos vazios e na medida em que vivemos vamos crescendo, nos fazendo, nos formando. Isto acontece tanto no sentido daquilo que devemos adquirir quanto também no sentido de retirar os excessos maléficos presentes no nosso ser.
A Quaresma é também um grande itinerário que se pode fazer para dentro do nosso eu. Normalmente encontramos pessoas que têm prazer em viajar, em aventurar-se para um lugar bem distante, muito lindo, repleto de aventuras talvez, longe de tudo e de todos. Pois bem, não sou nenhum agente de viagens, mas dou uma singela dica, nesse tempo Quaresmal, o “nosso eu” é um lugar propício, recomendável e interessante para se poder “viajar”.
Uma viagem em que não necessitamos levar muitas bagagens, porque uma das consequências de tal viagem é justamente diminuir as bagagens que trazemos em excesso e que tem nos cansado no caminhar.
Qual excesso que tenho levado na minha bagagem, naquilo que julgo ser necessário para viver com intensidade a minha vida, a minha busca de fidelidade e então de felicidade? Na Quaresma, o deserto, o silencio, a oração, a autodisciplina são meios para, primeiramente identificar, e depois retirar da mala do coração os excessos.
Não é o chocolate, a coca-cola em si ou quaisquer outras coisas que obstaculizam a leveza do nosso coração, eles são símbolos que condensam a luta espiritual entre a carne e o espírito. Porém, ao fazermos qualquer propósito para vivenciarmos bem esse tempo, ele deve conter a intenção de educar o nosso corpo, os nossos instintos e impulsos através do nosso espírito.
Não significa dizer que não se vai nunca mais comer “chocolote”, mas que a abstinência provisória dele pode proporcionar um crescimento interior, uma maturidade humana e espiritual na capacidade adquirida de se possuir permanentemente. De fato, só quem se possui é capaz de doar-se ao outro, na doação completa que não corre o risco da superficialidade e, ainda, é capaz de ser livre nas decisões.
Digamos que Quaresma é uma grande oportunidade que temos para retornar a nós mesmos, na nossa verdade mais íntima que talvez ainda não conhecemos. Ela tem haver com a dignidade própria de termos sido criados por Deus, salvos por Jesus Cristo e santificados pelo Espírito Santo.
Oportunidade, palavra tão linda, do latim ob portus. É explicada a partir de um vento nomeado pelos romanos marítimos; vento que passava uma vez ao dia e tinha a função de conduzir o barco à vela para o porto, se eles perdessem (por distração) tal vento tinham que esperar até o dia seguinte o próximo vento “ob portus”. 
Portanto, não percamos a oportunidade que a Quaresma nos oferece para retornarmos ao Porto Seguro, de onde devemos sempre partir e retornar: Deus. 

quarta-feira, 9 de março de 2011

QUARESMA...

     Com Deus eu consigo ser mais eu, adquiro coragem para adentrar no meu lugar e ter uma profícua decisão de viver a quaresmal “viagem”.
      Adentro querendo entender, ou seja, entrando na minha tenda acompanhado por Deus. Pois com Ele não me frusto e nem me iludo com o que encontro:
     Espanto e encanto, vazio e excesso, sujeira e beleza, limites e possíveis, harmonia e fragmentos,  duvidas e certezas, coragem e covardia, santidade e rebeldia. Enfim, encontro em mim o bem e o mal, sou assim, sou normal pois “Nada do que é humano me é estranho"  dizia sábio Terêncio na antiguidade.
     Mas identificar e reconhecer um erro já é o começo para querer e buscar o acerto. Entendo e os percebo, dou o conceito que eles não me definem, pois sou constituído também por dons. Porém, os dons não são tão meus, são dados por Deus; diferente dos erros, que são meus e os adquiri por mim mesmo, pela minha própria decisão, influenciada talvez por experiências, ambientes, pessoas. É preciso saber que “Um erro na vida não significa uma vida de erros”, sempre há tempo de recomeçar, basta querer e permitir a bonita transformação de quem aprende, de quem cresce a partir dos próprios erros.
     Aceitemos então depositar os nossos erros e misérias no Divino coração, no processo inesgotável da sua misericórdia. Aproveitemos a oportunidade, façamos a quaresmal viagem, fazendo sorrir o que em você e em mim é mau na busca da santidade. Saber que “a menor intenção de ser melhor já é amor”(W.Alencar) e já nos concede uma vitória antecipada da contínua e laboriosa jornada.
     Deixemos o misoneísmo de lado quebrando os paradigmas e dogmas que impedem nosso crescimento espiritual. Se a oportunidade nos é inspirada no “chocolate”, que saibamos através dele disciplinar tudo o que reveste o corpo e humanidade. Assim, gradativamente vamos retornando ao Porto Seguro que só é realmente seguro quando identificado à própria identidade e à Deus. Por isso que COM DEUS EU TORNO-ME MAIS EU.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

MÁSCARAS: atração e traição


Carnaval, um tempo de máscaras! O que se percebe é o quanto o povo de si se esquece, querendo assumir o que não se é para quem sabe talvez, conquistar o que e quem se quer. A máscara, sua intenção é a atração que vem acompanhada do risco da traição.
Trair é fingir, fingir é fugir de si mesmo, divorciar-se da própria identidade rompendo com a sinceridade pessoal e com a alteridade natural.
Atrair com base na traição não convém, não há um profícuo bem, a atração não existe a não ser por falsificação. Feridas grandes que se criam a partir do verniz que se coloca. O verniz dá brilho e tudo mais, mas muitas vezes é colocado somente para suprir lacunas qualitativas à madeira.
Não é preciso se trair para atrair. A atração verdadeira que não é passageira é aquela que cria raízes no solo da sinceridade do ser. É sendo quem se é, na tranquilidade de deixar-se conhecer sem o medo do desprezo, que se consegue atrair o outro para o nosso centro.
A atração que falo não é a banal, mas a cordial; aquela que seja uma porta de entrada para o outro adentrar em nosso coração e tornar participante de nossa vida, fugindo daquilo que tem caráter provisório e que contenha superficialidade.
Sim, a máscara chama atenção, pode atrair a muitos, mas não atrai a todos. Ela é colocada no Carnaval, mas em alguns ela permanece durante anos. E quando o Carnaval passar? Para muitos a quarta feira de cinzas nada significa, não entendem a mensagem de que somos pó e cinzas e parecem querer continuar a usar por mais tempo a máscara.
No poema Tabacaria, o poeta português F.Pessoa tão bem expressou ao falar de alguém ou de si mesmo: "Fiz de mim o que não soube e o que soube não o pude fazer (...) quando resolvi tirar a máscara vi que estava envelhecido...”.
A máscara falsifica o nosso perfil, nos envelhece, nos engana, mas muitas vezes isso tudo não se percebe pelo simples motivo da ilusão, onde as emoções provisórias nos traem. A intenção não tem atenção quando a máscara tende a tampar as nossas misérias e ainda dar outra imagem de nós mesmos.
Fingir é fugir da realidade que é chão para alcançarmos os nossos sonhos, os nossos ideais. Não devemos nos contentar com aquilo que somos, é interessante e útil o aprimoramento, a experiência, o esforço, o interesse; enfim, precisamos ser insaciáveis em ter a nossa própria definição. Como dizia Guimarães Rosa:  "O animal satisfeito dorme".
Não devemos fugir daquilo que somos, mas também não devemos erguer nosso eu como a um troféu, na satisfação de quem se acha pronto e imutável. Não, nada de "espírito de Gabriela": “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim...”  É muito mais louvável a busca e o esforço natural do que o comodismo ocioso em colocar a máscara e resolver tudo como a uma mágica.
Falo da máscara subjetiva, não da máscara enfeite. Sobretudo porque há uma maneira sadia de usar máscara, participar da festa, viver a cultura, sorrir, dançar e se alegrar no Carnaval. Mas que a máscara circunstancial não seja pretexto para tornar-nos mascarados na identidade pessoal.
         Quiçá as máscaras pudessem ser tiradas ao término do Carnaval e assim, todos pudessem viver sob o regime da sinceridade. Trair e ser infiel é também sinônimo de infelicidade, tenhamos o devido cuidado com o Carnaval temporal e sobretudo com o Carnaval que insiste em querer continuar.

TABACARIA 

                                                           Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz.  O dominó(roupa) que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência por ser inofensivo. 
E vou escrever esta história para provar que sou SUBLIME.
(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

RECOMEÇO...



     É necessidade para perseverar no caminho que dinamicamente se finda e se reinicia,
    De maneira nova, sem empolgar-se e acomodar-se com as vitórias, nem tampouco frustrar-se com sua ausência nas possíveis derrotas.
    Começar de novo partindo de onde se está, sem rupturas com a realidade que circunda, seja ela alegórica ou catastrófica.
    Considerar a história como escola para viver o que é necessário e ordinário. Tijolos que se têm para poder reconstruir o novo começo no abandono do querer e no esforço do poder.
    Não, nada de revoluções externas! A motivação é interna e passa pelo critério do equilíbrio que privilegia sempre o autoconhecimento na reflexão do real e do ideal de cada indivíduo.
    Andar com novos sapatos, pelo velho e conhecido caminho. Perceber que não há um novo caminho, mas conceber uma maneira nova de caminhar.
Recomeço desconhecido que se teme, mas há atrevimento e comprometimento em fazer tudo bem feito.
    Lembrar que começar é de muitos, mas perseverar é de poucos. São os que têm em si uma “determinada determinação”(Tereza) e traçam propósitos que são conquistados na simplicidade dos dias e dos passos.
    Vamos colocar novamente os sapatos e voltar ao trabalho. E ainda, pegar a caneta e o caderno e voltar aos estudos.
    O caderno é a metáfora do recomeço. Páginas preenchidas e páginas vazias, dias que se passaram e ensinaram, e dias que ainda virão no virar de cada página. A escrita? Será feita com a tinta da própria vida.




“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes”(F.Pessoa)

domingo, 23 de janeiro de 2011

FÉRIAS: ÓCIO E NEGÓCIO

FÉRIAS

Intervalo necessário para quem se dedica e cumpre a tarefa de cada dia.
O trabalho digno, o estudo dedicado, o esforço realizado para que tudo concorra para o bem na normalidade ordinária que preenche a vida, merecem a recompensa.
Colocar a mochila nas costas, a mala no carro, percorrer estradas, viajar de avião, ir para o campo, para a praia, visitar amigos, dedicar-se à família, ler um bom livro, ir ao cinema, teatro... Programas que constituem as férias.
Mas as férias não servem para descansar? Certamente. Porém, o descanso não inclui somente o aspecto físico, é muito mais que isso. Sobretudo porque o cansaço tem maior peso na mente, é o famoso “cansaço mental”.
Humanos que somos, temos os nossos limites, precisamos parar por um tempo determinado para refazer as nossas forças. Como dizem os pernambucanos: “Precisamos desopilar”, ou seja, sair e retornar a nós mesmos através de coisas que distraiam e promovam o bem da nossa humanidade.
Como é bom esse ócio provisório (das férias) para quem ordinariamente nega o ócio e, portanto, é uma pessoa de negócio.
As férias, descanso por todo esforço realizado já que “o trabalhador é digno do seu próprio salário”(); mas é também preparo ao que virá. Forma indireta de planejar a própria vida, na harmonia recebida, na paz garantida e na renovação das energias.
A mala, que simboliza a capacidade que temos de carregar a nossa própria vida, é feita cheia de alegria, no alívio e na expectativa da viagem. Viagem que deve também provocar uma visita ao nosso próprio eu, numa viagem subjetiva que suaviza os pesos da vida.
Como é bom viajar! Como é agradável estar com as pessoas que amamos, visitar e sermos visitados. Como é enriquecedor as novas amizades! Como é bom o sorriso, a diversão, a partilha, como é bom poder sentar sem ficar olhando para o relógio.
Mas eis que as férias findar-se-ão e o extraordinário dará lugar ao ordinário. Iniciará então a tarefa de tornar extraordinário tudo aquilo que é ordinário, como dizia Tereza de Jesus.
A mala deve ser desfeita e voltar para o seu lugar habitual. Mas do coração não devem ser retiradas as alegrias vividas e a harmonia recebida, são pois, motivação para a continuidade.
A vida é sempre dinâmica e continuará com suas exigências, desafios, dificuldades (as contas pra pagar que o digam) normais e inevitáveis. Porém, a maneira de acolhê-la e encarar a sua realidade torna-se opcional de nossa parte.
Escolhamos a simplicidade como um lema para o breve recomeço. A simplicidade que esconde a perfeição da vida e a possibilita. Na calma, na paciência, no “piano piano se va a lontano”.
Sobretudo, “a simplicidade é querer uma coisa só”(C.D.A.). Isso permite que o ócio provisório das férias não altere em nada os nossos negócios, os nossos trabalhos, estudos e as coisas que regularizam a vida e, pelo contrário, contribua positivamente para que tudo aconteça de forma continuada e repleta de sucesso.


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FELIZ ANO NOVO!!!




          Mais um fim de ano é chegado e mais um ano novo se aproxima. Chegada e partida que se misturam entre o 31 de dezembro e o 1º de janeiro, culminantes na meia noite..
         A retrospectiva do ano que se finda: alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, lágrimas e sorrisos, erros e acertos, perdas e ganhos, satisfação e lamentação. Assim fomos nós durante o ano, uma mistura de sensações/reações perante os acontecimentos de cada um dos 365 dias do ano.
         2011 vai embora, mas fica em forma de história. Uma página virada, mas que não será esquecida, permanecerá na memória. Não tão somente em forma de lembrança saudosa, mas em forma de aprendizado, na capacidade de ser escola e chão para o que virá.


     Meia noite.
     Os ponteiros dos relógios apontam conjuntamente para o céu. Momento em que o temporal cronológico motiva as pessoas a elevarem-se num anseio incontido e manifestado de “tocarem o céu”, ou seja, de serem felizes.
      Mas a meia noite não é nenhuma mágica; não há rupturas, a vida continua com sua dinâmica e exigência normativa. Na próxima segunda feira muitos voltarão ao trabalho. Porém, a motivação que a “meia noite” proporciona pode conferir a cada um uma maneira nova de enfrentar a realidade. A esperança rege esse momento.
          Todos anseiam por um mundo novo. Aliás, o dia 1º é dedicado à Paz Mundial. Todos querem a paz, e talvez por isso as vestes brancas, as canções (“ Esse ano quero paz no meu coração...”). Mas a paz não pode ser vista apenas como ausência de guerra, ela deve ser, sobretudo, presença de amor.
          E o mundo é transformado à medida em que cada coração também o é. O bem Universal que desejamos, começa necessariamente no bem Particular. Como diria Drummond: “é dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”          As preces são muitas, sejam em forma de oração ou de superstição; querem garantir um ano repleto de realizações. 2012, A esperança gera uma confiança grande de que tudo concorrerá para o Bem. Mas esperança e confiança em quem??? Nas 3 ondas que se pula, na lentilha que se come, numa oferenda feita a uma deusa, numa veste branca ou em tantas outras formas supersticiosas de haurir energia positiva? Respeito todas iniciativas, mas não acredito na eficácia delas. Eis então, uma sugestiva resposta:
          “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).
          Que no ano de 2012 saibamos buscar o amor de Deus. Não está distante, está dentro de cada um de nós. O mesmo Deus que recorremos à “meia noite” é o mesmo que nos acompanhará como nenhum outro fará, durante todos os dias durante o Ano Novo..
         
           Deus, garantia de um ano repleto de VIDA, de AMOR, de PAZ, de SUPERAÇÃO, de PACIÊNCIA, de TRABALHO, de SOLIDARIEDADE e de VITÓRIAS.

Oração para o Ano Novo:

Senhor Deus, dono do tempo e da eternidade,
teu é o hoje e o amanhã, o passado e o futuro.
Ao iniciar mais um ano, paro minha vida diante
de teu calendário, que ainda não comecei,
e te apresento estes dias,
que somente tu sabes se chegarei a vivê-los.
Hoje, te peço para mim e para todos
os meus parentes e amigos, a paz e a alegria,
a fortaleza e a prudência, a lucidez e a sabedoria.
Quero viver cada dia com otimismo e bondade,
levando por toda parte
um coração cheio de compreensão e paz.
Que meu espírito seja repleto somente de bênçãos,
para que as derrame por onde eu passar.
Enche-me de bondade e alegria, para que
todas as pessoas que eu encontrar no meu caminho
possam descobrir em mim um pouquinho de ti.
Dá-me um ano de 2012 feliz e ensina-me a repartir felicidade.
Amén!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

2011... IR ALÉM...



IR ALÉM DO QUE SE PENSARIA PODER, SONHAR E DEIXAR-SE SER.
ABRIR O CORAÇÃO E DEIXAR QUE A HISTÓRIA ME ENSINE E QUE A VIDA ME INSPIRE.

NÃO BASTA OLHAR É PRECISO ENXERGAR,
NÃO BASTA ANDAR É PRECISO BEM CAMINHAR,
NÃO BASTA FALAR É PRECISO DIZER,
NÃO BASTA ESTAR É PRECISO SER,
POIS A VIDA QUE EXPERIMENTO PODE SER MUITO MAIS
SEI QUE SOU CAPAZ.





DESCOBRIR O ESSENCIAL DO QUE É VISÍVEL
SABER QUE SÓ SE VÊ BEM COM O CORAÇÃO.
QUERER DAR SEMPRE O MEU MELHOR,
POIS O MEDO DE ERRAR NÃO ME IMPEDIRÁ DE LUTAR E ACERTAR.



NÃO BASTA OLHAR É PRECISO ENXERGAR,
NÃO BASTA ANDAR É PRECISO BEM CAMINHAR,
NÃO BASTA FALAR É PRECISO DIZER,
NÃO BASTA ESTAR É PRECISO SER.
POIS A VIDA QUE EXPERIMENTO PODE SER MUITO MAIS
SEI QUE SOU CAPAZ... PORQUE DEUS ME FAZ CAPAZ.